Tenho inveja das plantas e animais. Parecem-me tão serenos, possuidores de uma sabedoria que desconhecemos. Como se desfrutassem da felicidade do Éden. Sofrem, pois não existe vida sem sofrimento. Mas sofrem sempre na medida certa, na hora certa, e não por antecipação. Saber sofrer é uma lição difícil de aprender. Se o caos nos golpeia e nada acontece, algo está errado. Pois como não chorar se o destino nos fez sangrar? Se não choramos talvez nosso coração esteja doente, tenha perdido a capacidade de sentir. Mas sofrer fora de hora é uma doença também, permitir-se ser cortado por golpes que ainda não aconteceram e quem sabe sejam apenas fantasmas da imaginação. Os animais e plantas sabem sofrer. Nós não.Somos prisioneiros da ansiedade. Pois ansiedade não é isto?Sofrer fora de hora, por um golpe que,por enquanto só existe no futuro que imaginamos?
Talvez os animais sejam sadios de alma e nós, doentes. Norman O.Brown, um intérprete dissidente da teoria psicanalítica, parece concordar ao se referir à "saúde simples que os animais gozam, mas não os homens". E Alberto Caeiro chama as próprias plantas como testemunhas de nossas doenças. Diz ele:
Ah,
como os mais simples dos homens
são doentes e confusos estúpidos
ao pé da clara simplicidade
e saúde em existir
das árvores e das plantas!
Até mesmo Jesus Cristo, sofrendo com a nossa dor pelos supostos sofrimentos futuros, nos aconselhou a aprender da sabedoria das aves e dos lírios dos campos, reconciliados com a vida, vivendo as dores e felicidades do presente, e livres dos fantasmas da imaginação ansiosa. Sofremos pelo futuro e, por isso, não podemos colher as modestas(porém reais)alegrias oferecidas pelo presente. Num documento poético de Jorge Luiz Borges encontram-se os seguintes versos de sabedoria:"Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda chuva e um pára-quedas.Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Se não o sabem, disso é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora. Mas já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo".
Acho que todo mundo sabe, intuitivamente que sempre existe uma loucura na maneira de ser dos homens. É por isso que a nostalgia por um sítio ou uma casa na praia aparece com uns dos sonhos mais persistentes. Para longe do falatório inútil, quando todos dizem e ninguém escuta.De volta para a natureza, onde, de acordo com a vida, e evidenciada por doutrinas pagãs e neopagãs são lugares mágicos, sempre lindos, que merecem ser contemplados, onde os espíritos costumam rir, brincar e conversar com os homens. Ora como não ganhar a simpatia de um elemental da terra sem estar em contato com ele? Por isso sentamos no chão, deitamos, abraçamos árvores, cuidamos de plantas mentendo a mão na terra, como fiz na manhã de hoje. Até a alimentação é mais à base de frutas e grãos. Novamente de volta para a Grande Mãe, onde nada se diz e mesmo no silêncio se ouve uma sabedoria esquecida.
Dizem que São Francisco pregava sermões aos animais. Desacredito. Só podem ter se equivocado, pois só se pregam sermões aqueles que se julgam portadores de uma sabedoria que outros não tem. Prega-se para convencer os outros que reconheçam seus erros, se arrependam e se tornem melhores. Mas de que erro convenceremos as plantas e animais? São perfeitos em tudo o que fazem! Borboletas, chacais, aranhas, urubus, tigres, golfinhos, beija flores...Todos se movem harmonicamente de acordo com a melodia que há em seus corpos. Nenhum de seus afazeres ou movimentos é uma mentira, afinal são, por dentro e por fora exatamente a mesma coisa. E que ensinamento há que possam melhora-los?
Os animais ditos amestrados, principalmente de circos, só me dão tristeza. Pois estes aprendem o que os homens lhe ensinam na medida que se esquecem daquilo que a Grande Mãe lhes ensinou. Acredito no possível contrário: que o santo conversava com os animais, escutava o seu silêncio e, se falava alguma coisa, era como o aluno que repetia em voz alta aquilo que acabara de aprender do mestre. Talvez seja esta a razão pela qual ele seja tão amado, porque nos seus gestos e palavras ele nos diz de um jeito de ser de plantas e bichos que nos esquecemos e que queremos nos lembrar para sermos menos infelizes.
São Francisco logicamente não foi o único. Zaratustra, segundo os poemas que relatam sua vida, cansou-se dos homens, e por dez anos viveu sozinho no alto de uma montanha, tendo como únicos companheiros uma águia e uma serpente. Thoreau, da mesma forma, abandonou a civilização para viver no meio das matas, para ali aprender um saber semelhante ao dos índios, que não se encontra nos livros ou colégios. E Santo Agostinho, em suas Confissões, declara que os seus mestres foram as coisas:
Perguntei a terra,
ao mar, à profundeza
e, entre os animais, às criaturas que rastejam.
Perguntei aos ventos que sopram
e aos seres que o mar encerra.
Perguntei aos céus, ao sol, à lua e as estrelas
e a todas as criaturas à volta da minha carne:
Minha pergunta era o olhar que eu lhes lançava.
Sua resposta era sua beleza.
Outro engano seria dizer que plantas e animais não falam. É verdade que estão mergulhados no silêncio que interrompe o vozerio dos homens. Mas é neste que sua voz é ouvida,vinda das profundezas do seu ser. Pois é aí que mora a sabedoria que perdemos. Diz Cecília Meireles:"Sede assim qualquer coisa serena, isenta, fiel.Não como os demais homens".Com o que concorda Alberto Caeiro, discípulo dos mesmos mestres:
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Fontes:Maria Lucia De Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins-Filosofando;Eddie Van Feu-Wicca volume 47-trabalhando com os elementais da terra;Bíblia sagrada;Ruben Alves-O retorno e terno;google
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