segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Quase quase cinza

Eu sabia de onde ladravam os ventos pelas tardes e ladrilhos
dos mistérios inexistentes.
Eu sabia de que matéria esta sensação de derrota é feita, moldada,entre.instrumentos de.tortura.pálpebras.e.espelhos.todos.amassados.
Eu sabia dos poucos que falavam na janela, perante o escuro inconcebível a flauta doce da voz das fábulas.
Eu sabia através do vídeo o vácuo do sangue atrás e além
da imagem, violentos planetas vomitando
.o.
.drama.
Sabia das tartarugas infinitas,
dos bodes expiatórios,
dos lavabos cheios de unhas vivas,
da eternidade do gesto humano
morrendo ao longo do aclive da descida.
Sabia das certezas e incertezas negras, do resumo de quase tudo rodopiando e dançando na chuva mais cotidiana do sabbat mais diluído.
Só não sabia do seu sorriso dançante na chuva mais cotidiana se diluindo em fumaça de cigarro.
Só não sabia era do seu corpo quase infantil
de jovem amanhecido e hospitalizado.
Só não sabia era do timbre da sua voz entreserena encurralada
libélulas, fungos e borboletas fluindo do mesmo único verbo
Só não sabia do opalescente rastro de seus pés perto de cachoeiras apagadas.
Só não sabia da galáxia a resumir vazia
[o silêncio mortal da sua aura quebrada.
ai de mim
que jamais fora de ouro ou que jamais fora breve.


ajuda: Afonso Henriques Neto

Um comentário:

Unknown disse...

Gostei muito, um belo poema de desilusão!

abraço!