Ele vai envelhecer para os amigos do ensino fundamental e médio. Ele vai envelhecer para seus animais de estimação, mortos ou vivos, lembrados e esquecidos. Ele vai envelhecer quando a primeira coisa que fizer será tirar as coisas do bolso, os sapatos e o cinto. Ele vai envelhecer para a moça da janela do prédio da frente. Ele vai envelhecer aorecusar os excessos, bastando uma escova e uma toalha. Ele vai envelhecer para seus pais, que comentarão com piedade entre si que ele já não é mais o mesmo. Ele vai envelhecer para as balconistas do mercado, do banco, das lojas, que não se incomodarão em verificar o saldo. Ele vai envelhecer ao aumentar sua fixação por poltronas, seu jeito esforçado de assumir suas contas, sua disposição em ser mais velho no medo e mais novo no aniversário. Ele vai envelhecer ao estalar o pescoço e os dedos da mão. Ele vai envelhecer ao amarrar os sapatos, debruçado no sofá como a água na escada. Ele vai envelhecer ao interditar todo o dia pra ficar na frente do espelho ajeitando o cabelo. Ele vai envelhecer ao sofrer atoa para narrar em detalhes o seu sofrimento. Ele vai envelhecer ao investigar-se a ponto de ser seu inimigo. Ele vai envelhecer ao aproximar incrivelmente seus olhos dos livros, mesmo de óculos. Ele vai envelhecer quando alguém abraça-lo na rua: "Não acredito que é você!". Ele vai envelhecer para os seus alunos, garçons, mendigos, vendedores de jornais no sinal, hippies da praça sete. Ele vai envelhecer quando não for compreendido, continuará envelhecendo ao ser entendido. Ele vai envelhecer, por mais que seu rosto custe em se apressar no bom dia. Ele vai envelhecer descendo as escadas e saindo do cinema. Ele vai envelhecer com tênis usados uma única vez. Ele vai envelhecer ao suspirar mais do que o chá. Ele vai envelhecer ao ouvir a música preferida da sua pré-adolescência. Ele vai envelhecer pela cervical. Ele vai envelhecer ao escorregar os pés para o fundo dos bancos do ônibus. Ele vai envelhecer cheio de infância pela frente. Ele vai envelhecer principalmente a cada gripe mal curada, a cada choro engasgado. Ele vai envelhecer como um pião envelhece na corda, como uma colcha envelhece em seus retalhos, como uma criança envelhece ao escrever. Ele vai envelhecer para os outros, todos os outros.
Só eu que não vou saber disso envelhecendo com ele.
Um comentário:
que texto lindo, bia ^^
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