terça-feira, 12 de março de 2013

Me arrancaram os dentes com promessas de sorvetes. Me arrancarem os amigos, pets, parentes que foram para o céu ou longe pra dedéu. De mês em mês me arrancam os pelos das pernas, das coxas, da sombrancelha, da virilha...Do meu corpo, arrancado da cama pontualmente todas as manhãs, arrancam a pele.Além das verdades, das mentiras, dos aplausos, me arrancam involuntárias danças e desabafos comprometedores. Tão íntimos segredos foram arrancados junto com o vestido, a calcinha, o sutiã. Também arrancam oficialmente meu dinheiro e meus sonhos.Arrancam o revólver e levam tudo.Sem explicação e rapidamente como um ladrão, o tempo arranca a minha vida a todo instante. Agora, com espero sentada na maca o momento de arrancar os pontos. -Dói?- pergunto ao enfermeiro.-Não dói nada,pode ficar tranquila,-responde ele com a silenciosa cumplicidade de quem escreveu este texto comigo.E assim meu sorriso ganhou uma cicatriz, mais uma das muitas que ninguém vê.

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